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UIA - O impacto da análise preditiva na execução da Lei

A análise preditiva permite que os Advogados tomem melhores decisões, confiando no tamanho de uma amostra maior de dados objectivos ao avaliar possíveis resultados.

Ross é um jovem Advogado que trabalha como associado num grande escritório de advogados norte-americano. Um colega pede-lhe que pesquise as leis contratuais relevantes da Califórnia e da Pensilvânia para apoiar a posição de um cliente. Não há problema: Ross está à altura do trabalho. Ele reviu toda a jurisprudência da Califórnia e da Pensilvânia sobre contratos e segue ainda com uma revisão às fontes secundárias. Ross analisou todas as informações e fornece ao colega as respostas que o mesmo precisa, incluindo as citações de todas as autoridades relevantes. Ross terminou o seu trabalho em minutos. Ross é um robô.

Se Ross parece uma personagem de algum thriller futurista de ficção científica, pense novamente. Ross – na verdade ROSS – é real e é utilizado por vários escritórios de advogados nos EUA. O crescente uso do ROSS representa apenas uma das muitas inovações tecnológicas que afectam a prática do Direito hoje.

ROSS é utilizado por vários escritórios de advogados nos EUA e representa apenas uma das muitas inovações tecnológicas que afectam a prática do Direito hoje.


Empresas de todos os sectores reúnem e agregam praticamente todos os aspectos dos dados do consumidor: idade, raça, rendimento e os produtos que compram. O que estas empresas estão a fazer (e que os escritórios de advogados não fazem) é utilizar esses dados como uma vantagem – chegando a potenciais consumidores. É neste contexto que o sector jurídico está a começar a recuperar o atraso, utilizando uma ferramenta tecnológica conhecida como análise preditiva. A análise preditiva combina arquivos de dados com machine learning – software de treino que ensina através de exemplos – para prever resultados e providenciar aos Advogados novos conhecimentos. O surgimento destas novas tecnologias tem o potencial de remodelar o sector jurídico, empurrando-o para “a beira de uma revolução tecnológica”.

A utilização da análise preditiva pode beneficiar a execução da lei de várias maneiras: melhorando as análises de custo/benefício; prevendo os resultados judiciais; melhorando as perspectivas de acordos; aumentando o acesso a meios legais de clientes com baixos rendimentos, e assim por diante. Pense em análise preditiva como fazer um bolo: ferramentas como Bloomberg Legal Analytics (BLA) e Ravel Law’s Court & Judicial Analytics são os chefs; têm milhões de registos de arquivos de big data (os ingredientes crus); que os reorganizam de maneira coesa (combinar os ingredientes de acordo com uma receita); aplicam inteligência artificial e machine learning (colocar a mistura no forno e o que sai é fácil de digerir), insights que podem afectar as estratégias de resolução ou ajudar a prever resultados (um bolo que pode ser comido inteiro ou em pedaços).

Uma das principais funções de um Advogado é ser um decisor.


Ao lidar com clientes, uma das principais funções de um Advogado é ser um decisor. Para tomarem recomendações informadas para os clientes, os Advogados devem fazer previsões com base nas informações que têm à sua disposição. Inerente a qualquer processo decisivo bem-sucedido está um elemento de análise de custo-benefício. O problema é que fazer julgamentos precisos sobre a probabilidade é uma conversa extraordinariamente difícil, e muitas pessoas sobrestimam a precisão dos seus julgamentos. A utilização de big data e análise preditiva para fazer previsões baseadas num conjunto de informações agregadas pode ajudar a compensar essas limitações. A análise preditiva permite que os Advogados tomem melhores decisões, confiando no tamanho de uma amostra maior de dados objectivos ao avaliar possíveis resultados.

A mudança tecnológica está aqui para ficar; não se vai embora. Como Advogados, a nossa única opção é adaptarmo-nos e seguirmos em frente. Por este motivo, este tema, entre outros relacionados com a prática jurídica na era digital, será debatido no 62.º Congresso da UIA, que se realizará em Portugal, no Porto, entre os dias 30 de Outubro e 3 de Novembro deste ano.
Texto Murray S. Levin (Assessor do Presidente da UIA - L’Union Internationale des Avocats) e David Gallagherr (Ex-Associado na Pepper Hamilton)