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Cultura Artes & letras

“Nenhuma esconde o orgulho que tem na outra”

A convite da Comissão para as Letras e as Artes da OA, Cristina de Almeida Carvalho escreve, na primeira pessoa, sobre a sua obra.

Cristina Drios

Fernando Pessoa escreveu: “A minha arte é ser eu. Eu sou muitos.” Todos nós somos muitos. Eu sempre fui várias e, por vezes, não sei exactamente o que sou, mas sei que sou sempre eu. Há a Cristina de Almeida Carvalho, Advogada e agente oficial da propriedade industrial, e há a Cristina Drios, leitora, amadora de fotografia, pintura, literatura e história, escritora. Coexistem dentro do mesmo invólucro corpóreo. Sustentam-se e amparam-se uma à outra. Ao fim de tanto tempo de convívio, encontraram o equilíbrio entre as respectivas vidas, obrigações e afazeres. Sabem separar as águas ou misturá-las, como melhor me convém.

Todavia, nem sempre conviveram pacificamente. Enquanto uma queria ler, viajar e viver, a outra via-se a estudar Direito. Enquanto uma enchia gavetas de maus poemas e resmas de textos, a outra começara a ter de dedicar-se ao escritório, deixando de parte a escrita. O cansaço do dia-a-dia quase matou a criatividade, mas esta é um bicho rijo, um gato com sete vidas, um rabo de osga. A escrita acabou por retomar o lugar que lhe cabia por direito.

Em 2012, o romance Os Olhos de Tirésias, com a participação portuguesa na Primeira Guerra Mundial em pano de fundo, foi finalista do Prémio LeYa e vencedor da Selecção Portuguesa do Festival du Premier Roman de Chambéry. Em 2016 saiu Adoração, um romance dedicado ao pintor Caravaggio. Surgiram também contos em antologias e na imprensa, entre os quais Histórias Indianas e A Mãe. Entretanto, a Advogada continuou a exercer. Nenhuma esconde o orgulho que tem na outra, porque a verdadeira arte é ser eu, o que quer que faça. E eu sou ambas.
Texto Cristina de Almeida Carvalho (Advogada) e Cristina Drios (escritora)

EXCERTO D’OS OLHOS DE TIRÉSIAS

“De súbito, tudo se precipitou, tudo resvalou, tudo foi sugado para dentro da noite e do medo. Um very light estoirou no céu negro, acima das cabeças a correr, iluminando a terra de ninguém como um fogo-de-artifício festivo. Quando se extinguiu, rebentou outro. Outro e outro. Durante longos momentos as luzes dos foguetes pairavam no ar, suspensas em pára-quedas de seda, a esbranquiçar o negrume, esvanecendo-se devagarinho. A pedir música de fanfarra, os metais a luzir em frente, os tambores a troar atrás, pensou Alvin Martin, e guloseimas e bocas e dedos pegajosos e beijos e carrosséis num turbilhão de animais de pau, e cores, e luzes. E, enquanto Alvin Martin fechava os olhos, feridos pela brutalidade dos lampejos, sobre os vultos em fuga caía uma chuva de granadas. Hope for the best. Prepare for the worst. Take joyfully what happens, tartamudeou baixinho. Era o lema de vida do seu falecido avô. As granadas rebentaram, rebentaram, rebentaram adiante, com o estampido de tiros de feira em pequenas latas vazias, até a grande festa terminar e regressar o silêncio, pesado e escuro, como o pano de cena de uma noite sem luar nem estrelas, como o medo dentro de Alvin Martin.”